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25 outubro 2009

SOBRE AS PALAVRAS DO RIO...



O lírio observou as estrelas no firmamento e se encantou. Contudo, algo tirava-lhe o sono. Naquela manhã, havia lhe dito o rio que não se vê duas vezes o mesmo céu. Desde então, observava cada minuto de maneira diferente. Não teria aquele tempo de volta...
Claro, tinha agora a consciência de ser um lírio e seus momentos seriam breves. Talvez não chegasse a outra estação e suas flores partiriam sem deixar aviso. Com elas, não só seu perfume, como também sua essência.
E o lírio, envolto em lágrimas, debruçou-se na tristeza. Sua beleza seria levada como a água que se despedia do leito a cada milésimo de segundo.
Por toda a noite perdeu-se em reflexões e, na manhã seguinte, ouviu perplexo o cantar de um bem-te-vi que, faceiro, alegrava a generosa tília que lhe servia de abrigo.
Sem conseguir se conter, disse o lírio ao belo pássaro:
- Alguém já lhe contou que não se vê duas vezes o mesmo céu?
- Sim, aprendi ainda bem jovem.
- Então, como pode continuar cantando? Que motivos tem para se mostrar tão feliz?
- E por que mudaria meu jeito de ser?
- Pelo simples fato de saber que tudo que nos cerca deixará de existir.
- Ora, posso não ter certeza se estarei vivo amanhã, contudo estou hoje e talvez não tenha uma nova oportunidade de demonstrar todo meu contentamento em ter passado pela vida. O futuro é incerto, mas quando se existe plenamente, um simples instante pode durar uma eternidade. É assim que nomes e histórias se tornam imortais. Não se esqueça, viver é um ato de renascer a cada momento.

Sem mais nada dizer, o pássaro voou e o lírio pôs-se a observá-lo até que sua imagem se perdeu no horizonte. Ao voltar a si, percebeu, pela primeira vez, que as folhagens da tília se renovavam e admirou-se. E inesperadamente, uma certeza cresceu em seu interior: embora sua passagem pelo mundo fosse efêmera, nada mudaria o fato de que um dia, um lírio nasceu à margem do rio e alçou vôo nas asas de um bem-te-vi.


LONGOBUCCO,Bruna. Além das Nuvens. Belo Horizonte: Escritório de Histórias, 2005.

2 comentários:

  1. Nas asas da imaginação eu voo ao ler palavras tão belas, num conto tão reflexivo.
    Estou muito feliz em conhecer o seu blog!
    Estarei constantemente aqui!
    Beijos com o meu carinho

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  2. Olá Bruna, adorei seu blog!

    "nada mudaria o fato de que um dia, um lírio nasceu à margem do rio e alçou vôo nas asas de um bem-te-vi".

    Lindo! Lindo!

    Abraços!

    Lívia

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