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19 janeiro 2010

A BORBOLETA E A MARIPOSA




Em meio ao roseiral, a borboleta avistou uma mariposa que, num pranto sentido, vergava o frágil corpo em direção ao chão.
Num pequeno voo se aproximou, aterrissando em delicada pétala vermelha - O que tens?
- Nada. Não tenho nada. Acaso lhe conheço? – Indagou a mariposa impaciente, sem, contudo, erguer o olhar...
- Não, mas está conhecendo agora. Eu vinha num vagar delicioso, aspirando o inebriante perfume das rosas, mas vê-la aqui tão desolada me chamou a atenção.
- O perfume das rosas... Embora eu esteja aqui, em meio ao roseiral, ele parece não chegar até mim. Estou tão distante do campo, quanto a águia no céu.
- Ora, o perfume das rosas é para todos. Porém, vou lhe contar um segredo: às vezes, também me sinto assim. Todavia, são pequenos momentos de questionamento e, depois, a vida parece me chamar de volta... em vez de lamentar minhas limitações, tento compreender o meio que me cerca e seguir adiante. Nada pode ser tão importante que supere a beleza de um dia de sol ou o nascimento de uma flor. Ainda não encontrei razão maior para ser feliz do que o simples fato de ser livre.

A mariposa fitou a borboleta pela primeira vez. O azul de suas asas perdia-se num infinito de cores mágicas e, a graciosidade de seus movimentos, fez com que se sentisse ainda pior. A criatura ao seu lado era a imagem de um céu límpido e cintilante, enquanto ela trazia nas asas aveludadas e escuras, um horizonte enegrecido e sem perspectivas.

- Fácil você falar, enquanto parece o sol, sou a própria noite. Significa esperança e liberdade e eu, mau presságio. As pessoas lhe admiram, mas me repelem, temem minha presença, sou feia, bruxa e tantos outros nomes dos quais já me esqueci. Não vejo motivos para continuar, não tenho razões para existir.
- Se não tivesse razões para existir, não estaria aqui. Agradeço os elogios, mas me reservo o direito de fazer os meus. Veja, apesar de suas asas serem negras, são pontilhadas por pequenos círculos de ouro. Um tom que me lembra as estrelas com que nos brinda o anoitecer.
- Está brincando comigo?
- Claro que não, estou apenas afirmando que a noite também tem sua beleza e não seria possível admirar um dia de sol se não a conhecêssemos.
- Agora começo a entender...
- Então tente alcançar meus pensamentos. Deus quis que existissem borboletas e mariposas. Ambas pertencemos a uma cadeia, nossa existência traz interpretações e significados diferentes mas somos parte de um mesmo mundo.

A borboleta preparou-se para voar. Havia ainda tarefas a realizar, contudo, tocou a mariposa num gesto de carinho e incentivo – Não desista de ser o que é, viver requer força e persistência mas, acima de tudo, exige de nós a fé. Fé em acreditar que não somos de fato o que aparentamos ser. Já fomos pequenos ovos, lagartas, crisálidas... o que ainda seremos, só Deus pode saber.

A borboleta deixou em alguns instantes o roseiral. E não se passou dois tempos antes que a mariposa a acompanhasse... em meio a cores e pétalas, sentindo a fragrância das rosas, altiva e orgulhosa, ela partia em direção aos seus ideais. Trazia agora a certeza de que sem a escuridão, não poderia haver estrelas, nem noites de luar.

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