Meus livros!

08 janeiro 2010

A DAMA DA TARDE



Quando o escritor mudou-se para a pequena cidade Européia, os dias tornaram-se maiores. O ar campestre do vilarejo onde se situou, trouxe maior inspiração e calma para os trabalhos literários. Algo que colidia com seu caráter intempestivo e a inexplicável pressa que veio marcar a passagem para os trinta anos.
Naquele período, sua grande certeza era precisar de solidão. Não acreditava em relacionamentos, questionava o amor. Órfão desde bebê, não buscava qualquer forma de aproximação além da necessária. Todavia, com o passar do tempo, a janela do sobrado tornou-se parte da obra de Jean. E foi assim que, da pequena mesa onde instalou a preciosa máquina de escrever, pôs-se a observar, ainda que não intencionalmente, a vida da vizinha da frente.
- Lara é seu nome, é muito só mas vive de rendas, falam que a herança dos pais proporcionou-lhe boas terras pela região – Diziam os moradores que, vez ou outra, cumprimentava ao percorrer a ruela calçada, a fim de buscar provimentos, enviar e receber as intermináveis correspondências.
Todos os dias, ao entardecer, Lara abria a porta do chalé, percorria a passagem entre os canteiros de flores e ficava em pé diante da delicada portinhola em ferro trabalhado, à esperar pela passagem do carteiro. Contudo, estranhamente, nunca chegava a comunicação esperada.
A pergunta era a mesma:
- Chegou, Marquito?
- Não, dona Lara. Apenas contas...
O belo semblante da distinta senhora se nublava e ela entrava em casa, como quem encerra a esperança entre quatro paredes e tranca-se num mundo próprio, além da sociabilidade necessária aos relacionamentos humanos.
Feriados, fins de semana, ela não saía. Como se não houvesse motivos para abrir a porta, já que não era dia de correio. Uma jovem oriental fazia a limpeza da casa duas vezes por semana e cuidava das compras e pedidos da moradora. E assim prosseguia a misteriosa existência da dama.

Certa tarde de uma terça-feira chuvosa, Marquito não veio e Lara esteve em pé até que a última gota d’água caiu. Quando o anoitecer deu suas primeiras mostras, finalmente se recolheu.
Porém, houve um dia que o escritor não se conteve. Cruzou a rua e fitou a vizinha intensamente. Ela, por sua vez, não sustentou-lhe o olhar. Sua visão ia além do atrevimento daquele desconhecido, que se recostava sem convite à mureta de sua propriedade. Ignorou sua a presença e realizou a mesma antiga rotina.
E o estranho episódio, se repetiu durante um ano. Até que um dia, Jean tomou coragem e, num evidente desabafo, perguntou à Lara:
- Senhora, não posso mais me calar, o que a faz enfrentar nevascas, tempestades, frio, calor e, ao mesmo tempo, ser tão reclusa? Que espécie de encomenda conduz de tal forma o destino de alguém? Já não consigo trabalhar, que meus personagens, inconscientemente, tornaram-se todos Laras.

Ela delineou um sorriso discreto nos lábios.
- Escritor... sua janela revela acontecimentos do meu dia a dia, no entanto, isso não lhe dá o direito de me importunar. Mas bem, agrada-me tua sinceridade, é espontâneo, raridade em nossa época. Talvez seja tempo de contar minha história a alguém. Todos os dias após a passagem do correio, venha falar comigo. Abrir-lhe-ei uma exceção.
E assim fez Jean. Nos primeiros dias, Lara nada disse de significativo. Parecia checar a personalidade do rapaz e os diálogos eram triviais. Então, quando enfim sentiu-se confiante, falou...
- Tenho esperado notícias de meu marido.
- Agora entendo. Há quanto tempo ele partiu? – indagou o jovem, sem esconder o interesse.
- Vinte e dois anos. Foi lutar na Segunda Grande Guerra. Ainda não voltou.

Jean não podia acreditar no que ouvia e foi nítida sua expressão de choque – Desculpe-me Lara, mas faz tantos anos... ele não foi dado como morto?
- Ah, sim... porém, nunca encontraram nada que o identificasse. Jamais recebi suas cartas e Toni não sabe faltar à palavra empenhada... assim como eu. Fui fiel à promessa de respeitar nossos votos nupciais, até saber o que houve com ele. Fiz um juramento e não posso voltar atrás.
- Sinto muito, não quero ser cruel, mas se após 20 anos, não recebeu uma única nota, não penso que ainda possa receber.
Lara pareceu ponderar. Então, sua voz rompeu o silêncio estabelecido – Depende da dimensão temporal. Já amou alguém Jean? Verdadeiramente? - Ele negou e ela prosseguiu – Pois eu sim. Não foi um amor qualquer. Nos apaixonamos desde crianças e nos casamos ainda bem jovens. Vivemos muitas vidas em apenas uma. Com sentimentos e atitudes intensas, inesquecíveis. Um único dia ao lado de meu Toni, valeu por todos esses anos que tenho caminhado até o portão, inutilmente. Conheci Marquito e tantos outros... foram Antônios, Mários, Carlitos... vi pessoas passando em busca de algo que nem ao menos sabiam definir, gente comprando, buscando. Casais discutindo, escritores chegando e partindo da nossa encantadora vila. E ouvi os sinos da igreja, analisei homens e mulheres que não me dedicaram um único olhar. Nenhuma visita levou mais de uma hora, as propostas não visavam nada além de minhas posses, nenhum amigo ou parente, interessou-se por mim. A última pessoa que realmente me enxergou foi meu marido. Até você chegar. Ambos com olhares diferentes, óbvio. Por isso, estou narrando minha vida. Sabe, encontramos seres de todos os tipos. Grande parte apenas passa pelo nosso caminho. Outros, deixam seus traços para sempre. Eu não pude esquecer meu passado. Admiro quem possa. Confesso até que tentei... não consegui ignorar o compromisso de alma, as confidências trocadas.
Antes de partir, ele me disse - "Vou voltar, Bella e seremos mais felizes do que somos agora. Teremos filhos, compraremos terra e faremos nosso próprio vinho. Antes de chegar à próxima cidade, você já terá minha correspondência em mãos. Mas se algo acontecer, prometa que não vai seguir em frente até descobrir o que houve comigo. Não quero acordar em um hospital qualquer daqui há alguns anos e saber que porque perdi a memória, você está nos braços de outro. Eu não suportaria." - E aqui estou eu. Ainda em constante espera...
Quando Jean se foi, ainda relembrava as palavras da vizinha. Mais alguns anos se passaram e os primeiros cabelos brancos brilharam em suas têmporas.
Para o escritor, Lara era a face das tardes. Serena, digna, a inspiração personificada. Então, um pôr-do-sol se passou sem que ela chegasse ao portão...
Na véspera, disseram os vizinhos que um automóvel estacionou diante do chalé às primeiras horas da manhã. Contudo, Jean não estava na vila, pois que empreendeu curta viagem e, preocupado, não pensou duas vezes antes de deixar a máquina de escrever e tocar a campainha daquela que transformou seus valores acerca da existência.
Todavia, ninguém veio atender. Por fim, a moça da limpeza chegou - O que deseja senhor?
- Não vi Lara hoje. O que houve?
- Sinto muito. Ela se foi...
- Não entendi!
- Deixou nosso mundo. Faleceu ontem pela noite. Já levaram o corpo. Vim para trancar a casa.
Sem lutar contra as lágrimas que banharam-lhe as faces, Jean saiu abalado e com os passos vacilantes. Lara não pôde mais esperar pela verdade. E o incomodou saber que ela teria partido triste, incompleta por não conhecer o destino de Toni. Entretanto, algumas semanas depois, ao receber a visita de um causídico, Jean teve uma surpresa. Tornou-se o único herdeiro de Lara. Um testamento que invadiu-lhe a vida de assalto.
Curioso, entrou no chalé e procurou algo que denunciasse o porquê do gesto de Lara. certamente, haveria uma razão. Passou os olhos por cantos e recantos; percorreu com as mãos, quase todos os lugares da casa. Até que, sob a cama, numa caixa, descobriu uma centena de correspondências amareladas. E, destacando-se acima das outras, uma carta recém-redigida em seu nome.

Jean,
Quando senti que as forças já deixavam meu corpo, recebi uma visita inesperada.
Um viúvo que perdeu o filho na guerra, agora que está idoso, resolveu se desfazer de alguns objetos e encontrou entre tantos pertences, as cartas de meu marido. Eu estou nesse mesmo endereço há tempo demais e foi assim que ele chegou até mim.
Toni jamais conseguiu enviar suas correspondências em vida e, um mau presságio o levou a entregá-las a um companheiro. Preocupado, o rapaz, ao ser ferido e dar entrada no hospital, deixou em curta mensagem, a recomendação aos genitores; doente, ele não resistiu e a enfermeira guardou na pequena valise do paciente, a breve missiva, certa de que chegaria ao seu destinatário.
Como não podemos explicar certos desígnios da providência, a dor dos pais os impediu de tocar nos haveres do filho e, só agora, o relato cumpriu seu intento.
Suas poucas e preciosas linhas afirmam que o corpo de meu marido se perdeu entre os outros e, por isso, não pôde ser reconhecido.
O fato é que ele presenciou a morte de Toni e registrou que um rapaz sonhador, de olhos verdes e cabelos negros, sobreviveu a cem dias de guerra... registrando a cada nova aurora, uma mensagem para sua amada.
E Assim, vi minha longa espera terminar.
Pelo ritmo de meu coração, provavelmente não verei muitas outras tardes. Agora sei que Toni me aguarda e não estarei só ao partir.
Quero que saiba que fomos espectadores recíprocos, pois também segui seus passos através de jornais e folhetins.
Será procurado por um advogado. Não se surpreenda. Fiz-lhe meu herdeiro, para que leve minha história de amor adiante.
Vai dizer que quando o mundo parece penoso demais, ainda há aqueles que são fiéis aos sentimentos, pois mesmo que o ser humano se atole em indiferença, o amor luta para sobreviver aos sistemas, às classes, aos incrédulos. Eu escolhi não ser apenas mais um entre os outros. Não sei se foi a melhor escolha, mas era a única possível para mim.
E você, não seja os olhos por trás da janela, seja o reflexo que se estende além do horizonte, parte das nuvens que dançam sobre os telhados, a vida plena, que segue um caminho contrário ao comportamento socialmente adequado.
Acredite, um dia, a morte leva os olhares reprováveis, o conforto conquistado à duras penas, os comentários sarcásticos. Então, alguém abre um livro e vê que ainda existe esperança. Que as páginas sobreviveram aos passos errantes.
E vem a narrativa, delineando nossa percepção:

Aconteceu no verão... quando dois casais se mudaram para o campo, a fim de trabalhar no trato das videiras. Não parecia um dia qualquer, o sol brilhava intensamente e, enquanto os pais ajeitavam as moradias, duas crianças se encontraram à margem de um calmo regato. Ali nasceu uma amizade que atravessou a infância e, aos primeiros sinais da adolescência, tornou-se amor.
Cumplicidade, reciprocidade, fidelidade... e mesmo com as provas árduas do caminho, nem a morte conseguiu apagar o vínculo que se estabeleceu entre as duas almas...

Nem mais uma letra complementava a escrita de Lara.
Emocionado, Jean buscou por todo o conteúdo da caixa. Tocou retratos, viu sorrisos de enlevo, expressões ternas, acontecimentos que marcaram a vida de um casal admirável.
E, com as forças renovadas e uma diferente concepção sobre os sentimentos, teceu um conto de fadas da vida real.

Duas primaveras depois, Toni e Lara tornaram-se imortais. Eram agora o best-seller de Jean.
Que mesmo na loucura de se trabalhar, correr, lutar, as pessoas querem ainda conhecer alguns personagens, enfrentar rostos e faces, trilhar caminhos diversos, enfim, experimentar uma verdadeira e inesquecível história de amor.

2 comentários:

  1. Olá Bruna,impossível não se emocionar com essa história,realmente marcante,um ótimo final de semana,beijossss

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  2. Uma viagem emocionante por uma história que nos prende do incio ao fim.

    Bruna, você é uma escritora fantastica e fico orgulhosa em poder acompanhar os seus escritos mas acima de tudo por ter a sua amizade!

    Um beijo carinhoso

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