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21 março 2010

O LADRÃO DE SONHOS

Tirso vivia de sonhos, mas não dos dele. Desde pequeno achou mais fácil viver o sonho dos outros. Era uma índole que ele carregava assim e assim. Um estranho prazer de alcançar primeiro o querer de alguém que lhe era chegado. Quem via tal deslize em seu caráter afirmava ser mesquinho de sua parte, mas ele não se importava. Há muito aprendeu a não ligar para a noção de certo e errado.
Ainda se lembrava da infância. Quando criança, costumava ouvir os pais cochichando, dizendo o que gostariam que os filhos fizessem. Ele ouvia e fazia, no final, levava a boa fama. E se um dos irmãos queria um brinquedo, ele logo conseguia.

O tempo passou. A mania de Tirso, não. Chegar aonde uma pessoa próxima desejava chegar tornou-se hábito e lhe poupava o trabalho de descobrir sua própria vocação. Sentia orgulho quando realizava uma conquista alheia.
E foi como viveu por muito tempo.

Já adulto, conheceu Eleni. Apaixonou-se quase que imediatamente pela moça. Como já tinha uma boa condição de vida, diziam que estava em tempo de se casar. No entanto, o sentimento desconhecido o atordoou. Pela primeira vez vivia uma coisa que era só sua. Ficou apavorado.

A namorada, ao contrário dele, não tinha dinheiro. Era boa pessoa, isso era. Mas não passava de uma funcionária da fábrica de biscoitos que ele construiu, seguindo a intuição do irmão mais velho, Télcio. Mesmo o irmão, era só um de seus gerentes. Grato por trabalhar no lugar que, sem perceber, fez nascer.

Os pais, sabendo de seu relacionamento, pediram que levasse a moça a um jantar. Na mesma noite, houve uma surpresa e Télcio apresentou a noiva. Chamava-se Graça e o nome fazia jus a pessoa. Além de instruída, era de família rica. Sem conter a irritação, Tirso analisou a diferença entre as duas jovens. O esforço que sua família humilde fez para acolher Graça e o imediato conforto que sentiram na presença de Eleni.

Após as despedidas, os irmãos saíram para levar Graça e Eleni em casa. Contudo, Tirso já não era o mesmo. A velha inveja ocupou seu coração. E, naquele instante, o sentimento pela namorada tornou-se algo que mais lembrava um espinho. Ao chegar em casa, a sensação só aumentou. Os pais faziam planos para o casamento do irmão, admirados com a jovem que conheceram.

- Moça de classe - Falou a mãe - Quem diria que Télcio iria fazer um casamentão desses! E olhe que o esperto da nossa família é o Tirso.

Todos riram, mas Tirso não. Trincava os dentes para aparentar uma calma que nem de longe sentia. Claro, também elogiaram Eleni. Como a conheciam da vizinhança, não contestavam seu caráter e simpatia.

O que Tirso não tolerava, era ficar para trás em alguma coisa. Os dias passaram e o casamento do irmão o atormentava. A imagem de Graça tornou-se uma obsessão e passou a querê-la para si mesmo. Tanto que decidiu interferir no relacionamento. Dinheiro não era problema. Ele pagou uma qualquer para se fingir de namorada de Télcio. Arrumou provas e o enredo foi tamanho que acabou por separar os noivos. Sem entender o que aconteceu, Télcio confessa-lhe as dores. Tirso ouvia calado, rindo-se todo por dentro.

Embora fosse um ladrão de sonhos, todos interpretavam seus ganhos e conquistas como iniciativa de um talento que não possuíam para levar aquilo a que se propunham adiante. No entanto, embora não se negasse sua inteligência, estava a mesma mal direcionada. Desperdiçada numa competição sem fim, sem justificativa que, no fim das contas, não fazia ninguém feliz.

Diante das confissões de Télcio, dos planos feitos para um casamento que não aconteceria, Tirso rompeu o próprio namoro com Eleni. Sem entender o que acontecia, a moça se desesperou. Ela não entendia como pôde ser abandonada após um relacionamento tão intenso. Por amor, traiu seus valores e foi tudo em vão. Entregou-se a quem não merecia.

Mas Tirso não se importava. Colocou na cabeça que se casaria com Graça e tanto fez, que conseguiu o intento. Encenou um romance que levou o irmão a deixar a cidade. Eleni também partiu e, se num primeiro momento, Tirso se sentiu vitorioso, feliz e conheceu uma recepção de casamento de contos de fadas, quando a festa passou e sua vida conjugal teve início, descobriu que muitas coisas podemos fingir, mas não o que sentimos. Não na intimidade e a verdade é que não desejava estar com a esposa.

Ele entendeu que não amava Graça e o desamor era recíproco. A jovem foi levada a ficar com ele por um engano que não se desfez e acreditou em suas falsas promessas. Tão falsas, quanto o desejo que ele demonstrava sentir no início do relacionamento. Foram anos de indiferença a dois. Uma distância que com o tempo virou o inferno. E por uma questão de aparências, ambos permaneciam naquele compromisso sem amor.

Ela questionando se teria sido muito radical com Télcio. Nunca lhe deu o benefício da dúvida. Casou-se com o irmão dele e nunca mais o viu.
Ele lembrando-se constantemente de Eleni, a morena de olhos verdes e coração grande que nunca mais deixou seus pensamentos. Parecia um fantasma, bastava ter um mulher nos braços, para vê-la a sua frente, os olhos cheios de lágrimas, a decepção sentida e amargurada. Ainda a amava e sofria pela conseqüência de suas ações.

Somente a certa altura de sua vida, percebeu que viveu a vida dos outros. Construiu os planos dos outros e, embora fosse rico, nada tinha de seu. Como se seus feitos não fossem reais. Nada lhe dava prazer e o saldo crescente no banco, já não era mais motivo de felicidade.

Certa tarde, Graça trouxe uma menina para casa. Pele clara, cabelos negros e lisos, olhos claros, de porte miúdo e maneiras contidas. Devia ter uns dez anos, mas não falava. Chegou com uma carta em mãos e nada mais. Alguém havia lhe confiado a filha, por não ter condições de criá-la. Ele quis pôr a pequena a correr de sua casa, mas a esposa não permitiu e, com o passar dos dias, entendeu que não tinha escolha a não ser aceitar a presença de Maria, nome que a criança trazia gravado num pequeno pingente de prata que uma delicada corrente de corda sustentava em seu colo.

Graça tomou-se de amores por Maria e a acolheu como filha. E quanto mais ela se apegava a criança, mais ele a rejeitava. Tinha uma intrusa em seu lar, não bastasse toda a infelicidade de sua existência.

Passou a culpar o mundo. Ainda que tivesse muito, estava pobre. Vazio porque não foi atrás do que realmente o faria feliz. Aceitou a escolha de desejos que não lhe pertenciam e agora pagava um alto preço. Com o tempo, todos se afastaram. Ele transpirava uma energia tão pesada que deitou a correr a família e os amigos. Fazia-lhe mal administrar suas finanças, como se o sucesso profissional reabrisse as velhas feridas. Delegou suas funções. Já não se preocupava com as oportunidades que poderia perder.

Tirso não tinha mais vontade de trabalhar, nem sentia mais gosto em abocanhar o sonho dos outros. Descobriu que levou muito das pessoas, mas muito mais de si mesmo. Foi ladrão da própria existência. Vivendo uma tela de cores desbotadas e penosas que ele mesmo pintou, cego pela inveja e pela cobiça.

Cansada de encenar a felicidade fingida, Graça acabou por deixá-lo, porém, surpreendentemente, a filha do coração não a acompanhou. Bateu o pé e, mesmo sem falar, ficou com Tirso. Ele não entendeu a escolha e pouco lhe importou a decisão de Maria, embora lhe desse alegria a dor da esposa ao ter de deixar a pequena bastarda que acolheu.

Os anos passaram. Está certo, ele podia contar com muito, só que o dinheiro não supria suas necessidades. Quando adoeceu, foi Maria quem permaneceu ao seu lado e o amparou nos momentos difíceis. A menina havia se tornado moça e algo em seus olhos verdes incomodava-o profundamente, como uma lembrança indesejada que não sabemos de onde vem; uma agonia ressentida que a gente não identifica de modo algum. Esses vazios da alma que martelam nosso coração.

Naquela manhã de inverno, acordou e viu seu rosto no espelho. Constatou que o câncer levou-lhe bons anos de vida e o viço da juventude não mais existia. Se a amargura tivesse um rosto, ele seria a descrição ideal. Chorou lágrimas sentidas pela vida que escolheu. Pelos irmãos e a família que afastou. E pensou em Maria, sempre tão boa, tão generosa e tão maltratada pelo seu modo autoritário e cruel. A pobre desperdiçou preciosos anos nas paredes da mansão que mais parecia um castelo de areia. Estudou como pôde, largada, sem que seu dinheiro pudesse lhe dar algum carinho, algum conforto, completamente ignorada. Por alguma razão, só agora via os gestos passados que ficaram sem resposta. Aceitou ser seu pai adotivo chantageado por Graça quando ainda estavam casados, mas somente o vínculo legal existia.

Deitou-se na cama sentindo o corpo enfraquecer. Estava mergulhado entre o sono e a dor de quem caminha por horas e horas sem destino certo, levando uma carga pesada. Dessas que vergam a alma e nos fazem beijar o chão.

Em sua casa, retorna ao presente e tudo o que vê é silêncio e escuridão. Uma porta bate. Ouve os passos que aprendeu a conhecer. Eram de Maria. Estranhamente, com a doença, à exceção de seu olhar, sua presença tornou-se necessária e esperada.
Serena, aproximou-se da beira da cama. Estendeu-lhe os remédios e, quando ele os engoliu, tirou um envelope do avental. Depois de colocá-lo em suas mãos, saiu do quarto. A carta estava lacrada e selada. Viu que era da Capital e pensou no irmão. Até onde soube, era lá que Télcio vivia.

Ao abri-la, leu a história de uma moça que foi abandonada pelo homem a quem entregou seu coração. Grávida e sozinha, teve que deixar a cidade natal, os familiares. Não suportaria a dor de ser apontada nas ruas, de ver seu namorado casando com outra.

Ela foi para a Capital, mas o dinheiro logo acabou. O acerto do antigo empregou durou pouco e recorreu à única pessoa que conhecia na cidade - Télcio. Encontraram-se por acaso, num supermercado qualquer. Ele a acolheu, estava tão triste quanto ela. Não entendia porque tudo deu errado. Juntos, reunindo fatos e lembranças, foram descobrindo as armações de Tirso. Queriam se vingar, porém, logo, o coração dos dois falou mais alto. Não eram como Tirso. Não fariam mal a ninguém. Eleni levou a gravidez adiante e trabalhou com dignidade. Porém, quando a filha completou nove anos, sofreu um acidente fatal. Com a pequena Maria nos braços, Télcio tomou uma decisão. Contou tudo para a menina e mandou-a para a casa do irmão, de volta à pequena cidade onde foi gerada.

Com as mãos trêmulas e conhecendo a origem de Maria, a menina que ele tantas vezes chamou de bastarda, sentiu mais vergonha ainda de seu passado. Não sabia o que fazer. O desespero tomou conta de seu coração. Maria então voltou para o quarto e, pela primeira vez, Tirso ouviu sua voz.

- Agora já sabe a verdade. Pode entender o meu silêncio e porque optei por viver com você. Embora seja meu pai de sangue, sempre me tratou como lixo e só fiquei nesta casa porque sei que seria a vontade da minha mãe.

- E me contou tudo agora porque estou morrendo?

- Não! – Afirmou Maria. Tinha os olhos verdes marejados. Levou as mãos trêmulas aos cabelos negros e lisos como foram os dele na juventude, bem antes de a doença levá-los. Ele entendeu que o olhar de Maria o incomodava porque lembrava o último olhar que trocou com Eleni. Ela tinha os olhos da mãe. Se tivesse sido mais atento, veria os traços da semelhança física com sua família – Contei a verdade, para que possa levar sua vida até o fim, ciente de tudo que fez. Não é a morte que me levou a revelar o passado, mas a vida que ainda possui e o momento de dor pelo qual está passando. Durante todos esses anos, esperei que o senhor mudasse e só vi tristeza, revolta e amargura. Descontou nos outros, no mundo, o caminho torto que percorreu com as próprias pernas. Mas eu acredito em algo mais e sei, a gente pode mudar até o último sopro de vida. Se conseguir se arrepender, será mais homem do que foi durante toda sua existência.

Ela esperou que ele respondesse, como o pai não sabia o que dizer, deu-lhe as costas e saiu. E Tirso pensou, lembrou e sofreu. O choro sentido foi aliviando o peso dos anos. Foi ladrão de sonhos, mesquinho, dissimulou intenções, cobiçou talentos e ideias. E, de alguma forma, inesperadamente, agora que estava morrendo, soube que fez algo de seu. Um dia amou uma mulher e aquela jovem maravilhosa a quem nunca deu valor, era sua filha. Ironia do destino ou não, realizou algo de bom. Era tarde demais para voltar ao passado e corrigir seus erros, mas, dali para a frente, tentaria se perdoar e deixar uma única lembrança que valesse a pena.
E assim ele fez.

Viver o sonho dos outros é invejar a capacidade de sonhar que não temos. Não temos porque ela nos assusta ou porque em algum momento a perdemos, já que achamos que era impossível levar isso adiante. Roubar sonhos prontos é perder a melhor parte da vida, que é sonhá-los; um desejo intenso que faz alguém se levantar da cama todos os dias e não descansar enquanto não realizá-los. Você pode até pensar que está tendo uma alegria em concretizar o sonho de alguém, mas só quem deseja algo intensamente conhece a magia de ver tomar forma aquele esboço que a imaginação desenhou em sua mente. Se direcionarmos um único olhar sincero às nossas escolhas, veremos que ainda é possível construir algo de nosso, maior do que cifras e números. Algo que supere as aparências, o comportamento cotidiano que muitas vezes é forçado. Não devemos caminhar indiferentemente, guiados por um caminho que é o indicado como o certo e sim pelo caminho real que a vida reservou a cada um de nós. Porque somos muitos, mais do que imaginamos ser possível existir e, ainda assim, somos únicos.


Conto publicado no livro "Um Outro Olhar", em 2008.

2 comentários:

  1. Belíssimo, da narrativa à mensagem; os dilemas de Graça, de Tirso e a vida que se esvai quando muitos, milhares de almas, vivem apenas o sono dogmático do desconhecimento de si... Conto muito proficuo, Bruna. Apreciei muito. Abraços poéticos e bom fim de semana.

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