Meus livros!

16 fevereiro 2011

"O SOL NÃO APARECEU"

Novos autores precisam de persistência e coragem para publicar. Coragem para sair do papel. Persistência para acreditar que existe algo maior que os impulsiona a escrever. Algo pelo que vale a pena lutar. Eu não sei com quantos colegas já conversei pela rede. A verdade é que sempre procuro responder as mensagens que recebo e isso acontece desde 2004, quando decidi tirar meus escritos da gaveta. Foi assim que conheci muitas histórias. Autores que não sabiam registrar seus trabalhos no EDA e queriam apenas uma informação, outros que sondavam a participação em antologias, alguns admiravelmente engajados em atividades literárias, saraus, folhetins, outros sem recursos para custear uma simples participação em antologia. Vi muito desânimo por parte de quem enviou seu livro para análise vezes e vezes sem obter resposta. Vi pessoas com um sonho, mas sem condição de colocar a ideia no papel. Fiz amigos com quem compartilho um ideal. Amigos de quem falo com carinho e orgulho, pois apesar de toda e qualquer dificuldade no mercado editorial, são pessoas que simplesmente fazem acontecer. Não importa se hoje falta tinta na impressora ou dinheiro para postar um original e enviá-lo para avaliação; não importa se não obtiveram apoio de quem supostamente deveria apoiá-los. Sem uma condição financeira privilegiada ou o tal do quem indica, eles abrem espaço e tentam conquistar seu lugar. Estão apenas começando e por serem os novos nacionais, encontram grande resistência por parte dos leitores, no entanto, em muitos, a qualidade dos textos não se nega. Como também não se nega a capacidade de abrir caminho em meio às tantas portas fechadas com que nos deparamos ao longo do que significa escrever-publicar-ser lido.

Então, para o gênero e autor do "Feitiço" em fevereiro, tenho a alegria de postar o conto de um dos colegas queridos que tanto admiro.


O SOL NÃO APARECEU
Luciano Esposto
Presidente Venceslau / SP
Antologia "Contos da Meia-noite"- Edição 2011, CBJE

Acordei, como de costume, ao som da melodia que marcou minha vida. Eram oito da manhã segundo meu celular.
Abri a porta e fui para a sacada na tentativa de respirar o ar da manhã daquele inverno ainda lento, mas tudo parecia estranho. O sol não estava lá !
Um fianco de raciocínio me fez acreditar que o céu poderia estar nublado; mas, olhando fixamente, vi constelações e satélites brilhando como nunca, ainda que não visse a lua.
O raciocínio e a sensatez cobravam meu bom-senso ávido por respostas coerentes e resolvi sair à rua. Sem rumo caminhei silente percebendo o desespero das pessoas. Na padaria da esquina, um público cativo lotava o balcão próximo da TV onde nem os “experts” da meteorologia e física quântica conseguiam dar uma explicação que ao menos tranquilizasse a população. O dia tinha virado noite e isso era fato !
Olhei o celular quando o bip marcou dez horas e a noite ainda estava lá. Continuei minha caminhada e, por onde passava, sentia a angústia consumindo as pessoas. Templos, igrejas, casas de oração, todos repletos com seus pecadores na busca de redenção rápida, talvez acreditando tratar-se de Apocalipse.
O comércio estava uma balbúrdia. As poucas lojas que abriram logo fecharam com receio de saques, arrastões e todo tipo de violência que começava a dar anúncio de acontecer. Algumas, porém, nem abriram; talvez porque aos donos faria pouca ou nenhuma diferença o lucro.
Sentei-me na mureta do outro lado da avenida. Apesar do completo caos, da correria e do ar de final dos tempos; não queria me contaminar com aquilo ou, ao menos, pretendia apenas ficar lúcido.
Olhei novamente o celular que já marcava treze horas. A essa altura a fome dera lugar à ansiedade. Ninguém sabia o que viria a seguir. Olhei o céu e, novamente, as estrelas estavam lá... brilhando como nunca. Por um momento senti como se estivéssemos numa noite de verão após a costumeira e temperada chuva que acalenta o calor. Estou perdendo os sentidos, eu acho! Não posso entrar em confusão mental apesar da sensação de cabeça pesada como se ganhasse uma gripe.
A dúvida deu lugar ao desespero coletivo. Pessoas corriam em fluxo constante de um lado a outro em grupos fazendo lembrar a dança de rubros flamingos.
Enquanto assistia a tudo aquilo, fiquei pensando a quem atribuir a culpa de tal absurdo. Seria a tão anunciada “guerra nas estrelas” com suas bombas atômicas a se digladiarem com os foguetes anti bomba americanos a desinformação de todos? Não! Improvável em tempos de paz.
Talvez um teste malsucedido no espaço, mas isso seria capaz de causar tamanho cataclismo? Bobagem ! Devaneio e só!
Um novo bip do celular indicava dezessete horas. Horário do meu dentista. Mas, pensando bem, sorrir para quê? Para quem? Por quê? Diante dos acontecimentos sorrir não seria uma solução. Decidi não ir e resolvi voltar ao apartamento, pois o centro passou a tornar-se perigoso. Brigas e violências de todos os tipos já se via propagando pelas esquinas e ruas simultaneamente.
No caminho fazia um paralelo entre Deus e no homem. Seria isso tudo um sinal? Um prelúdio do resultado de nossos próprios males? Do nosso pecado ou daquilo que queira dar o nome?
Subia pelo elevador, que ainda funcionava, enquanto algumas certezas começavam a permear meus pensamentos.
O homem tem sido hipócrita consigo mesmo atirando no próprio pé com atitudes equivocadas, praticadas por alguns em detrimento da maioria, como se alguém conseguisse viver sozinho no mundo. O lucro a qualquer preço ficou entrincheirado na certeza de só valer a pena se tivermos para quem vender ou com quem compartilhar nossos produtos... nossas vidas.
A natureza teria vindo cobrar sua fatura a mando do próprio Criador que passivo, bondoso e infinitamente paciente teria dado mais que o tempo necessário para nos redimirmos? Talvez essa fosse a única coisa fazendo sentido nisso tudo.
Apanhei um copo de leite e um pedaço de pão e fui comer no sofá. Agora o relógio do aparelho de DVD marcava vinte horas. Ao menos nesta hora o céu começou a fazer um pouco de sentido. Estava escuro como de costume, mas não arrisquei ligar a TV e abri a porta da sacada. Queria sentir o da noite como ela tem que ser. Uma brisa fresca me acompanhava com os olhos. A rua parecia mais calma como se as pessoas estivessem querendo acreditar que tudo não passara de um mal-entendido absurdo, um pesadelo, talvez.
Sentei novamente no sofá onde vi uma enorme estrela de brilho intenso e adormeci.
O brilho da estrela começou a incomodar meus olhos. Sua intensidade aumentava a cada instante. Foi quando acordei com os primeiros raios de sol a me lamber a face.
Olhei de soslaio e percebi que havia adormecido. Teria tudo não passado de um sonho? Levantei e peguei o celular para ver a data. Não! Não foi um sonho!
E o mundo pela primeira vez percebeu sua insignificância tendo seu primeiro dia sem sol.
Recado de Deus? . . . Talvez!
A única certeza que tinha era que a culpa não fora só minha.

Luciano Esposto, escritor e poeta, advogado e funcionário público, teve obras selecionadas em alguns concursos literários, já participou de antologias da CBJE, em 2009 publicou o livro “Sensações Poéticas”.




Conheça mais sobre seu trabalho:

http://lucianoesposto.blogspot.com/

7 comentários:

  1. Oi Bruna, parabéns pela iniciativa, quero vê-la no conselho editorial da cooperativa literária que estou montando junto com a Drica.

    Quero muito que você trabalhe com a gente.

    Beijos.

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  2. Um belo conto, Bruna! Nos remete a reflexões sobre o nosso "estar neste mundo"! Perguntas que ainda não foram formuladas, mas que já exigem respostas!

    Receba também minha admiração pela postura que empresta, pela persistência que propaga e pelos sonhos partilhados, dos quais não se afasta jamais!

    Meu carinho!

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  3. adorei o conto, adorei o seu blog. Achei vc através de um grupo chamado rede de poetas. Tbm escrevo, muito mais poesia do que prosa. Um abração!

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  4. Publicar é difícil,
    nosso país é cheio de barreias, mas,
    acho que nenhuma delas pode falar mais alto que o sonho.
    Não há nada mais gratificante do que ver seu trabalho nas mãos de alguém que se sente bem, ou se emociona lendo.

    Um belo conto!
    Parabéns ao autor!

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  5. Olá,

    Encontrei seu site num blog, na página de autores parceiros.
    Eu estava interessada em saber se você aceita enviar-me alguma(s) de suas obras literárias (autografadas, caso seja possível) para que eu possa ler e resenhar ela em meu blog (primeiro-livro.com) e sorteá-la depois, caso você deixe.
    Peço-lhe, por favor, que caso aceite, responda-me mais breve possível por este e-mail (primeiro_livro@yahoo.com.br)
    Se for de seu interesse talvez depois, também possamos disponibilizar em meu blog, uma entrevista que farei com você.
    Aguardo ansiosamente pelo se retorno.
    Abraços,

    Amanda {primeiro-livro.com}

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  6. Oiiiii

    Só pra te avisar que chegaram os livros...quero ler imediatamente, to terminando o "Tim" / Collen McCnaugh e em seguida começo os seus.

    Te aviso assim que sair a resenha.

    Beijão

    Vanessa


    (TENTEI TE ENVIAR EMAIL, MAS TODOS VOLTAVAM...)

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  7. OLÁ
    ADOREI SEU BLOG E ESTOU SEGUINDO.
    ME SEGUE:
    WWW.AMORIMORTALL.BLOGSPOT.COM
    BEIJOS

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